FAA ou TEA? Descubra por que tantas mulheres não são compreendidas e como uma avaliação neuropsicológica pode mudar tudo
- Gisele Silva Corrêa
- 15 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Imagine passar boa parte da vida ouvindo que você é "difícil", "fria", "exagerada", "desorganizada" ou que "se esforça demais para coisas simples".
Muitas pessoas, especialmente mulheres, convivem com esse tipo de julgamento sem entender exatamente o porquê.
Quando finalmente encontram uma explicação, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou o Fenótipo Ampliado do Autismo (FAA), já carregam um histórico de sofrimento silencioso, incompreensão e exaustão emocional.
Essas experiências não são incomuns. Muitas vezes, os traços característicos dessas condições passam despercebidos ou são atribuídos a traços de personalidade, como timidez, perfeccionismo ou sensibilidade excessiva. Isso dificulta a busca por ajuda, pois o sofrimento é internalizado e naturalizado. A pessoa tenta se adaptar, esforçando-se para corresponder às expectativas sociais, muitas vezes sem saber que esse esforço é incomum e gerador de desgaste.
A avaliação neuropsicológica surge como uma possibilidade de compreender esse funcionamento de forma mais profunda e acolhedora. Com um olhar especializado e humanizado, é possível identificar padrões que, embora sutis, fazem toda a diferença no bem-estar emocional e no modo de se relacionar com o mundo.
Compreender é o primeiro passo para cuidar.
O que é FAA e como ele se diferencia do TEA?
O Fenótipo Ampliado do Autismo (FAA) é definido como um conjunto de traços autísticos em intensidade mais leve e que não preenchem os critérios diagnósticos do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Esses traços podem incluir dificuldades de interação social, sensibilidade sensorial, rigidez cognitiva e foco excessivo em detalhes, mas de forma menos intensa. O FAA costuma ser observado com mais frequência em familiares de pessoas diagnosticadas com TEA, o que indica uma base genética compartilhada.
Diferente do TEA, que implica em prejuízos funcionais significativos e necessidade de suporte constante, o FAA pode permitir um funcionamento considerado "típico" pela sociedade. No entanto, isso não significa ausência de sofrimento. O impacto pode ser silencioso, internalizado, e frequentemente invalidado pelo meio social. A pessoa com FAA é aquela que funciona, mas com custo emocional alto.
O TEA Nível 1, por outro lado, apresenta manifestações mais evidentes e interfere diretamente no cotidiano. O diagnóstico exige que os critérios do DSM-5 sejam atendidos, o que inclui dificuldades na comunicação social e comportamentos restritos ou repetitivos. Ainda que seja o nível mais leve dentro do espectro, exige intervenção e suporte estruturado.
FAA: quando o sofrimento é real, mesmo sem diagnóstico
Luana, 32 anos, trabalha com design gráfico. Ela é organizada, criativa e detalhista, mas sente um desconforto constante em ambientes imprevisíveis. Prefere rotina, sente-se drenada após interações sociais e evita situações que envolvam improviso. Embora consiga desempenhar bem suas funções, internamente vive em alerta e sente uma exaustão que poucos percebem.
Esse tipo de funcionamento é característico do FAA. Não há prejuízos que "saltam aos olhos", mas há sofrimento. A ansiedade pode ser constante, especialmente diante de mudanças de rotina ou demandas inesperadas. A pessoa se cobra por não conseguir agir com naturalidade e sente culpa por não gostar de situações que para outros parecem prazerosas.
Mesmo sem um diagnóstico formal, essas pessoas precisam de acolhimento e compreensão. A identificação do FAA pode trazer alívio, pois ajuda a entender por que certas situações são mais difíceis. A validação do seu modo de ser abre caminhos para ajustes no cotidiano que diminuem o sofrimento.
TEA Nível 1: quando o cotidiano exige suporte
Ricardo, 28 anos, é analista de dados e tem um funcionamento característico do TEA Nível 1. Ele evita contato visual, fala de forma monótona e interpreta falas de maneira literal. Precisa de rotinas estruturadas para manter sua organização e se desregula quando algo foge do planejado. Essas características afetam seu desempenho profissional e suas relações interpessoais.
Diferente do FAA, no TEA Nível 1 o impacto é mensurável e interfere diretamente no funcionamento social, ocupacional e emocional. Pessoas como Ricardo precisam de adaptações no ambiente, orientação clara, pausas sensoriais e compreensão por parte da equipe. Sem isso, podem enfrentar crises, isolamento e prejuízos em sua autonomia.
O diagnóstico de TEA Nível 1 permite acesso a recursos de suporte, como terapias e programas de inclusão. Mais importante ainda, promove um entendimento de que aquele jeito de funcionar não é falho, mas diferente. Essa compreensão é libertadora.
Por que tantas mulheres são invisibilizadas?
Estudos apontam que mulheres com traços autistas frequentemente passam despercebidas pelos instrumentos tradicionais de avaliação, que foram baseados em perfis masculinos. O Quociente do Espectro Autista (AQ), por exemplo, tende a identificar melhor os traços expressos em homens. Como o fenótipo feminino tende a ser mais sutil e internalizado, muitas mulheres não atingem as pontuações necessárias mesmo tendo traços significativos.
Essas mulheres são frequentemente interpretadas como ansiosas, sensíveis demais ou perfeccionistas. A tendência ao mascaramento, ou seja, ao esforço para se adaptar às normas sociais, contribui para essa invisibilidade. Elas ensaiam respostas sociais, copiam comportamentos e escondem seu desconforto, o que gera uma falsa impressão de adaptação plena.
O resultado é um sofrimento crônico e solitário. Sem nome para o que sentem, essas mulheres culpam a si mesmas por não conseguirem se encaixar, mesmo se esforçando tanto. A avaliação neuropsicológica sensível a essas diferenças é essencial para quebrar esse ciclo de invisibilidade.
O custo do mascaramento
Sofia, psicóloga clínica, é um exemplo de como o mascaramento pode ser prejudicial. Ela aprendeu, desde jovem, a imitar expressões, gestos e tom de voz para parecer acolhedora. Durante os atendimentos, mantém o sorriso e o contato visual, mas ao final do dia sente-se esgotada, com dificuldade de identificar suas próprias emoções.
Esse esforço constante para "atuar" um papel socialmente esperado consome energia e gera desgaste emocional. A pessoa se desconecta de si mesma para atender ao que o meio espera, o que pode levar a quadros de ansiedade, depressão e burnout. O custo é alto e invisível.
Reconhecer o mascaramento como um sinal de alerta é fundamental. Muitas vezes, ele é confundido com habilidade social, mas é, na verdade, uma tentativa de sobrevivência social. Identificá-lo na avaliação é um passo essencial para promover um acolhimento verdadeiro e restaurador.
A avaliação neuropsicológica como caminho de compreensão
A avaliação neuropsicológica vai muito além de aplicar testes. É um processo cuidadoso de escuta, observação e compreensão da singularidade de cada pessoa. Ela considera histórico de vida, contexto, relações e as formas como a pessoa enfrenta os desafios do dia a dia.
Por meio de instrumentos validados cientificamente, como o AQ, e também através de entrevistas clínicas e observações, o neuropsicólogo consegue identificar padrões de funcionamento cognitivo, emocional e social. Isso permite diferenciar traços do FAA e do TEA, mesmo quando são sutis.
O principal objetivo é oferecer um olhar compreensivo e integrador. O laudo e a devolutiva bem elaborados trazem clareza, alívio e direção. A pessoa se sente finalmente compreendida, e isso é transformador.
Exemplos do dia a dia: FAA ou TEA?
A diferença entre FAA e TEA pode ser observada em situações cotidianas.
Em relação à habilidade social, por exemplo, uma pessoa com FAA pode participar de eventos e até parecer sociável, mas sentir um grande cansaço mental depois. Já uma pessoa com TEA Nível 1 pode evitar esses eventos ou demonstrar dificuldade de manter uma conversa com reciprocidade.
Na flexibilidade cognitiva, o FAA permite alguma adaptação às mudanças, ainda que com desconforto. No TEA, mudanças inesperadas podem gerar crises, ansiedade intensa ou paralisação. Isso interfere na rotina, no trabalho e nas relações pessoais.
Na comunicação, o FAA pode apresentar linguagem um pouco mais formal e dificuldade com subtextos, mas consegue compreender ironias e piadas em contextos familiares. No TEA, a interpretação tende a ser mais literal, com dificuldade de entender nuances da linguagem e sinais não verbais.
A validação que transforma
Receber uma devolutiva que reconhece e nomeia as dificuldades vividas pode gerar um impacto positivo imenso. Muitas pessoas relatam um "alívio emocional", como se finalmente tivessem uma explicação para tudo que sentem. Saber que não está exagerando ou inventando, mas que existe um nome para aquilo, é libertador.
Essa validação também permite tomar decisões mais assertivas sobre carreira, relações e autocuidado. A pessoa começa a se respeitar mais, entende seus limites e aprende a comunicar suas necessidades. Além disso, pode encontrar comunidades com experiências semelhantes, o que promove sentimento de pertencimento.
Compreender-se é o primeiro passo para construir uma vida mais coerente com sua forma de ser. A partir desse autoconhecimento, é possível buscar o suporte adequado, desenvolver estratégias saudáveis e viver com mais leveza.
Conclusão: você não é o problema
Se você se reconheceu em alguma dessas histórias, saiba que não está sozinho(a) e que o seu jeito de funcionar não é um defeito. Características como hipersensibilidade, exaustão após interações sociais, dificuldade com mudanças ou preferência por rotinas podem ser expressões de uma neurodivergência que merece ser compreendida, acolhida e respeitada.
Durante muito tempo, pessoas com FAA ou TEA leve viveram sem entender suas dificuldades. Foram criticadas, mal compreendidas e não tiveram suas emoções validadas. Felizmente, isso está mudando. A neuropsicologia pode ser uma aliada importante nessa jornada de autoconhecimento e cuidado.
Buscar uma avaliação não é sobre receber um rótulo, mas sobre receber um espelho honesto e compassivo. Um espelho que mostra quem você é, com todas as suas forças e desafios, e ajuda a encontrar caminhos mais leves para seguir.
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Referência: Losh, M. et al. (2020). Quantifying autistic traits in parents: a large-scale study using the Autism Spectrum Quotient (AQ).



